Iniciativa criada no território Kalunga fortalece identidade comunitária e leva ao governo federal debate sobre novos limites para a radiodifusão comunitária.
Idealizada no coração do território Kalunga, em Cavalcante (GO), uma experiência de comunicação comunitária vem mudando a relação da população com a informação e ampliando um debate nacional sobre o direito à comunicação. A Rádio Kalungueira se consolidou como uma iniciativa inovadora ao unir formação, produção de conteúdo e articulação política a partir de um território tradicional.
Sob a liderança de Fátima Tertuliano, a equipe iniciou diálogo com o Ministério das Comunicações para apresentar uma proposta inédita no país: a criação de uma outorga territorial que permita a uma rádio comunitária cobrir todo um território tradicional, como o Kalunga, que se estende por mais de um município e ultrapassa fronteiras estaduais, apesar de que o território Kalunga tem mais de 260 mil hectares, abrangendo os municípios de Cavalcante, Teresina, Monte Alegre de Goiás e um território na divisa do Estado do Tocantins.
Atualmente, a legislação brasileira limita o alcance das rádios comunitárias a um raio de 15 quilômetros, regra criada em um período anterior ao reconhecimento jurídico dos povos quilombolas. Segundo a equipe, o modelo não contempla a realidade social, cultural e territorial de comunidades tradicionais.
Para viabilizar a mudança, a proposta prevê a necessidade de uma Emenda Constitucional (EC). A ideia, avaliada como ousada pelo próprio Ministério, busca beneficiar não apenas o povo Kalunga, mas também comunidades indígenas e quilombolas em todo o país. “A comunicação dos povos tradicionais não cabe em 15 quilômetros. Nossos territórios são vivos, amplos e históricos”, afirma Fátima Tertuliano.Além da jornalista e comunicadora quilombola Fátima Tertuliano Kalunga, a rádio conta com o comunicador popular Júlio César Paulino e o técnico de áudio Rael Santos. Mais do que um veículo comunitário, o projeto se define como político-pedagógico, baseado na ideia de “comunicação de dentro para dentro”, com protagonismo local e compromisso com a transformação social.
A rádio funciona de domingo a domingo, como um espaço intergeracional de formação e expressão, reunindo crianças, jovens, adultos e idosos na produção de programas culturais, jornalísticos, educativos e musicais. A iniciativa fortalece vínculos comunitários, amplia o acesso à informação e contribui para a promoção da cidadania no município.













