17/11/2025
Carlos Eduardo Brandt, servidor do Banco Central por 23 anos e líder da equipe responsável pela criação do Pix, deixou a instituição em agosto para assumir uma função no Fundo Monetário Internacional (FMI). A mudança para Washington marca uma nova fase na carreira do especialista, que passa a aplicar sua experiência em pagamentos digitais para contribuir com melhorias no sistema financeiro global.
A trajetória de Brandt no Banco Central segue uma tradição familiar: seu pai e seu avô também foram servidores da instituição. Ao longo de mais de duas décadas, o órgão conquistou protagonismo inédito, impulsionado pela inovação tecnológica, e o Pix se tornou a vitrine mais evidente desse avanço. Em 2021, Brandt foi incluído na lista da Bloomberg das 50 pessoas mais influentes do mundo dos negócios. O Pix havia acabado de completar um ano, com crescimento expressivo — de 56 milhões para 113 milhões de usuários — e já chamava atenção internacional.
Hoje, o sistema de pagamentos instantâneos conta com 161,7 milhões de usuários pessoas físicas e 16,3 milhões de empresas, e já movimentou R$ 85 trilhões em cinco anos, o equivalente a sete vezes o PIB brasileiro. Um estudo da fintech Ebanx mostra que o Pix é utilizado por 93% da população adulta do país e deve alcançar 7,9 bilhões de transações por mês até o fim deste ano. A projeção é de que a movimentação anual chegue a R$ 35,3 trilhões, um aumento de 34% em relação a 2024.

Os números e a repercussão internacional do sistema brasileiro motivaram o convite do FMI. Brandt agora atua na área de pagamentos e infraestruturas de mercado, contribuindo para projetos que buscam ampliar a eficiência e a segurança dos pagamentos globais. Entre os temas em estudo está a simplificação das transferências internacionais em tempo real, desafio que envolve legislações diversas, padrões regulatórios e interoperabilidade entre moedas.
Nesse contexto, Brandt acompanha iniciativas como o Nexus, projeto do Banco de Compensações Internacionais (BIS) que busca conectar sistemas de pagamentos instantâneos de vários países. A proposta, já conhecida como “Pix internacional”, está em fase inicial em cinco nações asiáticas. Ele também observa trabalhos em regiões como a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, que estuda mecanismos de integração financeira para 16 países.
Além dos pagamentos instantâneos, o FMI também acompanha o avanço das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), consideradas uma nova fronteira das finanças globais. A digitalização dos serviços financeiros, segundo especialistas da instituição, tende a reduzir custos, ampliar eficiência e diminuir a dependência de intermediários que hoje concentram grande parte das receitas de transações internacionais.
Um dos pontos que mais chamam a atenção no modelo brasileiro é o caráter público do Pix. Diferentemente de outros países que delegaram etapas da operação do sistema a empresas privadas, o Banco Central assumiu o desenvolvimento, a implantação e a gestão da ferramenta. Para Brandt, o modelo garantiu neutralidade, inclusão e independência tecnológica, além de impulsionar o mercado doméstico.
Esse modelo, entretanto, também chamou a atenção do governo dos Estados Unidos. Em julho, o Pix entrou na lista de investigações do Escritório do Representante Comercial dos EUA, sob alegação de possível prática comercial desleal. Analistas apontam que parte da motivação estaria relacionada ao impacto que o sistema brasileiro representa para big techs e empresas financeiras internacionais. Brandt evita comentar o caso, mas reforça que o Pix sempre foi desenvolvido com foco no interesse público.
A atuação brasileira em infraestrutura digital tem ganhado destaque global. A ONU lançou, em 2023, uma campanha para incentivar países a adotarem plataformas públicas digitais, e o Brasil compartilhou experiências como o próprio Pix, o sistema gov.br e o modelo da Carteira de Identidade Nacional. O país tem sido citado como exemplo de “laboratório global de finanças digitais” em estudos internacionais, como o relatório do Valor Capital Group, que destaca a coordenação entre governo, setor financeiro e tecnologia como fator decisivo para o sucesso da inovação.











