Produtores destacam necessidade de reconhecimento técnico e políticas para desenvolvimento socioeconômico da região
24/11/2025
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, no Pará, encerrou-se neste fim de semana com debates marcados pelo contraste entre o potencial da Amazônia e os desafios estruturais que persistem na região. Representantes do agronegócio amazônico apresentaram dados atualizados de produção e preservação, defendendo maior participação do setor nas discussões climáticas globais.
O presidente da Federação de Agricultura do Estado do Pará (Faepa), Carlos Xavier, destacou a singularidade do território paraense, que possui cerca de 30% de área antropizada, estabilidade climática média de 26°C e aproximadamente 3,2% da água doce do planeta. Apesar desse potencial, apontou que questões sociais e de infraestrutura continuam limitando avanços mais amplos.
O advogado Vinícius Borba, presidente da Associação dos Produtores Rurais da Amazônia (APRIA), chamou atenção para problemas estruturais nas áreas urbanas e rurais. Segundo ele, questões fundiárias, insegurança jurídica e dificuldade de regularização de propriedades são obstáculos vividos diariamente por produtores locais.
Debates sobre o papel produtivo e ambiental do agro
As discussões também abordaram a necessidade de reconhecimento das práticas de produção que conciliam produtividade e conservação ambiental. O engenheiro agrônomo Almir Rebelo apresentou dados sobre sistemas produtivos que contribuem para o sequestro de carbono, como cultivos de cacau e pastagens manejadas com braquiária. Segundo ele, pesquisas recentes indicam que a cadeia produtiva pode desempenhar papel relevante na mitigação das emissões.
Representantes do setor ressaltaram a necessidade de que políticas climáticas internacionais reconheçam métricas atualizadas e considerem práticas que já são adotadas no campo brasileiro.
AgriZone amplia presença do agro nas discussões
Pela primeira vez, a COP contou com a “AgriZone”, espaço idealizado pela Embrapa, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Sistema Senar. O local recebeu pesquisadores, líderes rurais e delegações internacionais, apresentando a tropicalização da agricultura brasileira e sua contribuição para a produção sustentável de alimentos.
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, enviado especial do setor à conferência, reforçou que a presença do agro nas negociações ambientais é fundamental para alinhamento entre produção, inovação e metas climáticas globais.
Dados da Embrapa mostram alta preservação na Amazônia
Estudos apresentados pela Embrapa Territorial mostraram que 65,6% do território brasileiro permanece preservado, sendo 29% dentro de propriedades rurais. No bioma Amazônia, esse percentual chega a 83,7%. Apenas 14,1% da região é utilizada para atividades agropecuárias, sendo 12,1% destinados a pastagens e 2% a lavouras.
A entidade destacou ainda que 34,9% do bioma está sob áreas de conservação, terras indígenas e áreas militares, enquanto 27,4% correspondem a áreas preservadas dentro de imóveis rurais.
Desenvolvimento regional e custos da preservação
Lideranças do setor também debateram modelos de financiamento e apoio à produção sustentável. O secretário-geral da World Farmers Organisation (WFO), Andrea Porro, destacou que produtores de diferentes portes enfrentam limitações distintas, reforçando a necessidade de políticas específicas e simplificação regulatória.
Para especialistas, a melhoria dos indicadores sociais da Amazônia depende de iniciativas que integrem preservação, geração de renda e infraestrutura. Representantes estaduais também defenderam maior participação do setor produtivo na elaboração de textos-base em conferências futuras.
A avaliação final é de que a COP30 abriu espaço inédito para o agronegócio na agenda climática, mas que ainda há caminho a percorrer para que a realidade amazônica seja plenamente considerada nas negociações internacionais.












